
O fotógrafo brasileiro Izan Petterle e o jornalista holandês Frans Glissenaar se conheceram em trabalhos especiais, encomendados pela revista National Geographic. Cuba de Che – 50 anos depois da revolução, livro que será lançado amanhã, no Café da Travessa, é o primeiro projeto independente da dupla, que, pelas afinidades profissionais, decidiu rever trajeto percorrido por um dos principais ícones do socialismo durante processo revolucionário liderado também por Fidel e Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e outros guerrilheiros. O diário de Ernesto Guevara foi, para eles, fonte essencial de informação e referência para os 3,9 mil quilômetros percorridos em quase dois meses de trabalho de campo.
Petterle conta que seu interesse pela ilha socialista surgiu recentemente, por influência de mestres como Cartier-Bresson. “Cuba é uma espécie de Meca para qualquer fotógrafo. Não sabia exatamente meu objetivo quando fiz a primeira viagem de reconhecimento”, lembra o fotógrafo, que passou 11 dias em Havana antes de iniciar peregrinação com Glissenaar. Conversas com o amigo jornalista, leitura da biografia Che Guevara: A vida em vermelho, de Jorge Castañeda, e o cinquentenário da revolução ajudaram na definição da abordagem. “Frans trabalha com jornalismo histórico, já passou pelo Camboja, Venezuela, Peru, Nicarágua. Em 2007, tivemos nossa primeira conversa. Ele leu o livro e topou a proposta”.
Do extremo oriente ao ocidente de Cuba, a dupla passou por lugares remotos, pouco visitados pelos turistas e sem infraestrutura para recepção dos estrangeiros. Para Izan Petterle, que não conhecia a região antes de iniciar a pesquisa, foi surpreendente encontrar regiões onde há carência de remédios e alimentos. “Achei a situação complicada, como se o país estivesse parado no tempo e numa situação difícil”, diz. Sem informações prévias sobre as condições da ilha antes da revolução e com referências na biografia e no diário de Che, Pasajes de la guerra revolucionária, ele observa que o foco era descobrir o que havia ocorrido com Cuba em meio século de socialismo. “Esse é o episódio político mais importante da história da América Latina. Lidamos com uma realidade que vai além do clichê do charuto e da música. Foi uma espécie de viagem no tempo”.
Durante as sessões, eles conheceram país farto de simbologias e hábil na transmissão de mensagens pelo que se vê. Mesmo em bairros e províncias distantes da capital, a dupla encontrou placas, cartazes e bandeiras com palavras de resistência defendendo ideais da revolução. O “dedinho de prosa” com cubanos, hospitaleiros e simpáticos, foi para o fotógrafo como transitar pelo interior do Brasil. Criado na fronteira com a Argentina, e sem problemas para compreender o espanhol, ele se sentiu “vizinho” do protagonista. “Percorremos Cuba pelos olhos de Che”.
Carga de desilusão
As 76 imagens selecionadas para o livro foram extraídas de material bruto com mais de 7,5 mil fotos. Os melhores resultados da mistura entre valores estéticos e conteúdo estão reunidos na publicação. Para Petterle, a definição mais próxima do que eles desejaram é o conceito de fotografia documental com liberdade poética. “É como na literatura, que embora trabalhe a partir da mesma matéria-prima do jornalismo, que é a palavra, oferece mais liberdade”. Depois de dois meses registrando lugares e situações em Cuba, eles passaram outros três dedicados ao processo de edição. A escolha pelo preto-e-branco veio das sensações depois da pesquisa. O registro seria em cores, inicialmente, mas o fotógrafo confessa descontentamento com as descobertas. “Comecei a achar Cuba excessivamente colorida para um país com tantos problemas. Não condenamos o regime nem glorificamos o capitalismo, mas a realidade é triste. O livro tem uma carga de desilusão”.
Colaborador da National Geographic Brasil desde o lançamento da revista no país, em 2000, Izan Petterle tem atuação destacada, com três primeiros lugares do prêmio Abril de jornalismo, na categoria reportagem fotográfica (2000, 2001 e 2007). Para ele, fundamental é a busca em cada trabalho da reinvenção do que vem experimentando esteticamente desde o início de sua trajetória. “Busco a possibilidade de fazer diferente”, diz. Ele lembra que, nesse sentido, a democratização do acesso às novas tecnologias tem permitido cada vez mais experimentação. O número ilimitado de imagens também pode representar mais sofisticação no resultado final. “Antes, havia a desculpa de que os norte-americanos eram melhores porque tinham mais filme para trabalhar. Agora, isso acabou”, brinca. E reconhece que, com condições de trabalho mais uniformes, as exigências pelo critério plástico são cada vez maiores.
Izan também comemora maior aproximação das mulheres com o gênero. Nos workshops que ministra pelo país, ele constata aumento da participação feminina. Segundo o professor, cerca de 70% das vagas são ocupadas por elas. “Elas são as guardiãs das memórias da família. Registram batizados, aniversários, passeios, acontecimentos importantes. Com a máquina digital, elas assumem a missão de fazer isso em sociedade”.
CUBA DE CHE – 50 ANOS DEPOIS DA REVOLUÇÃO
De Izan Petterle e Frans Glissenaar
Editora Carlini Caniato, 144 páginas, R$ 89. Lançamento no Café da Travessa, Av. Getúlio Vargas, 1.405, Savassi, (31) 3223-8092. Amanhã, 19h.
